O Futuro Não Será Protestante
fevereiro 9, 2009 às 11:19 am | Publicado em Rosinda Miranda | 1 ComentárioTags: O Futuro Não Será Protestante, Ricardo Mariano
Por Rosinda Miranda
RESENHA CRÍTICA
MARIANO, Ricardo. O futuro não será protestante. SP, USP. 1999.
1 CREDENCIAIS DO AUTOR
Ricardo Mariano é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo, professor do programa de pós-graduação em ciências socias da PUCRS e pesquisador do CNPQ. Realiza pesquisas na área de sociologia da religião, focando especialmente o movimento pentecostal no Brasil. Entre outras temáticas, pesquisou a corrente Neopentecostal, sobre a qual publicou o livro Neopentecostais:sociologia do novo pentecostalismo no Brasil(edições loyola), o crescimento pentecostal no País, a reação dos evangélicos ao novo código civil, a demonização pentecostal dos cultos afro-brasileiros, a teologia da prosperidade. Atualmente desenvolve pesquisas sobre a atuação política dos evangélicos
2 RESUMO DA OBRA
Neste artigo conforme bibliografia acima, Ricardo Mariano contesta a idéia de que a América Latina estaria se tornando protestante, e defende o contrário, para ele, a América latina está em um processo de declínio do protestantismo histórico, por isso, afirma que: “Questiono, em suma sua capacidade e seu potencial para transformar a cultura, os valores e a economia Latino-Americanos”(p.90). Por estas palavras percebe-se um descrédito no crescimento do protestantismo latino a partir de uma análise feita no Brasil. Na visão de Mariano quem avança na verdade é o pentecostalismo, pois ele cada vez mais se torna independente da influência das “matrizes religiosas Norte-Americanas”, pois, os grupos pentecostais abandonam as práticas ascéticas e sectárias e ganham novos espaços, que passam pelo processo de reconhecer a cultura local como sua aliada, ou seja, “está mais vulnerável a antropofagia brasileira”.
De acordo com os estudos do autor em questão no censo de 1991 as estatísticas mostram que os pentecostais cresceram cerca de 12%, a mais que os protestantes históricos, então, os protestantes representam 65% do total dos crentes, mais existe um problema nos dados, pois, o IBGE colocou a Igreja Adventista do 7º dia no grupo dos reformados e o ISER mostra que se colocar esta mesma denominação no grupo de outras religiões a queda no crescimento dos protestantes históricos é ainda maior, por isso, há um verdadeiro declínio das igrejas: Anglicana, Luterana, Metodista e Presbiteriana, Congregacional e Batista em menor número. Portanto, o protestantismo com todo o seu estigma de modernizador não comandam mais a América Latina, ao contrário, o que restou do protestantismo foi o conservadorismo.
Em uma determinada época o protestantismo fora criticado pela academia por apoiar a ditadura militar e ir de encontro aos ideários Marxistas, e na atualidade a crítica é com relação ao seu conservadorismo teológico e sua ética pietista, por isso, Mariano dialoga com alguns autores que estudaram o protestantismo na dec. de 60, entre eles estão: Rubem César Fernandes, Emílio Williams e Lalive D’Epiney, cujas pesquisas defenderam a equação “Catolicismo = tradição, propriedade senhorial, patriarcalismo, sacralização da sociedade / Protestantismo = modernidade, capitalismo, democracia, secularização”, esta posição é semelhante a do francês Émile Leonard (1967), que concebe a idéia de que o protestantismo transformou a sociedade rural e patriarcal para urbana e industrial, pois, a visão dos intelectuais brasileiros era de que esses grupos eram portadores de uma educação modernizadora que trazia resposta para os problemas tradicionais do Brasil, os quais são atribuídos ao catolicismo, estigmatizado como fonte do atraso social e econômico da região. Mas, os estudos da atualidade mostram que o protestantismo modernizador não existe mais, por isso, há muitas críticas com relação ao conservadorismo protestante, para Rubem Alves essas críticas surgem de “ex-pastores, ex-seminaristas, ex-líderes leigos forçados a deixar suas funções” e segundo Mariano, Rubem Alves diz o seguinte: “O protestantismo é analisado como uma ideologia repressora, totalitária, capitalista, que se encontra em casa num estado capitalista e totalitário (Alves 1978:134, 135)”.
E Antonio Gouvêa (& Velasque 1990; 142-144, 275) segundo Ricardo Mariano defende que: “A mentalidade típica do protestante de hoje é fundamentalista, conservadora, dogmática, isolacionista, autoritária, anticultural, antipolítica, passiva”. E todas essas características do protestantismo produzem alienação social e geram disciplinas de auto-repressão comportamental. Freston também mostra que as denominações protestantes adotam uma ética pietista de fuga da realidade e de conformismo. Então, o que surge é uma teologia do dominante, que sonha com um direito divino dos evangélicos ao poder temporal e ai temos a teologia da prosperidade que conforme Mariano:
Ideal de enriquecimento rápido por meios rituais. E, em vez da cosmovisão dessacralizada, que contribuiu para a ciência e para a abordagem ética dos problemas, temos a versão moderna da guerra espiritual, com sua volta à visão pagã do mundo. A proposta, portanto, visa resgatar a ética do ascetismo intramundano calvinista.[...] o protestantismo erudito, secularizado, ascético promotor da modernidade da ciência não mais existe.(P.94)
Segundo a visão de Mariano se assiste então a implosão do protestantismo e avanço em grande escala do pentecostalismo. Por isso, é necessário saber a diferença entre protestantismo da reforma e o pentecostalismo, então, o autor se detém no último para fazer suas análises. E defende o seguinte:
O protestantismo é um termo historicamente carregado de sentidos vinculados à modernidade, enquanto o pentecostalismo aparece rotineiramente, na literatura acadêmica, taumatúrgico, emocionalista, oposto à erudição teológica. Não é à toa que ele é visto como dotado de diversos traços de continuidade cultural com o catolicismo popular Latino-Americano.
De acordo com Mariano e também com os pesquisadores que ele cita em seu trabalho, o pentecostalismo teria como característica peculiar, o não apego as coisas do mundo, adota uma postura sectária e ascética, e crê no advento de Cristo, através do juízo final, e por isso, o crente não estabelece compromissos com este mundo, pois defendem a seguinte frase. “Meio reino não é deste mundo”, ou seja, seus anseios estão voltados para o apocalipse que proporciona a salvação eterna e para chegar a este fim o autor relata:
Ser membro de uma igreja pentecostal implicava severos sacrifícios. O preço pago em troca do conforto espiritual, da certeza na salvação, na cura e da participação na comunidade dos eleitos era altíssimo. O crente deveria observar toda uma série de proibições e prescrições legalistas. O ‘novo nascimento’, de forte carga puritana, exigia que o fiel se comportasse como um monge. (p.101)
Conforme o autor supra citado, com o aparecimento da vertente neopentecostal, cuja representante principal é a igreja Universal do Reino de Deus, as características pentecostais mudaram, os crentes deixaram de dar ênfase na segunda vinda de Cristo e em uma vida separada do mundo e começaram a propagar que para ser cristão tem que ser:
Liberto do Diabo e obter prosperidade financeira, saúde e triunfo nos empreendimentos financeiros. ‘ter encontro como cristo’ passou a significar ter uma vida prospera e feliz, ou a certeza de poder contar com a efetiva intervenção divina em toda circunstância, até para satisfazer ambições materiais. [...] Pode estabelecer sólidos compromissos com o mundo, como seus valores hedonistas, como seus interesses materialistas e com seus prazeres. (p.102)
Então, o que se observa segundo Mariano, é que o neopentecostalismo está ligado ás coisas materiais e possui um evangelismo de fazer prosélitos e anseia por poder político e econômico, as suas pregações são feitas em todos os ambientes sociais, como por exemplo, desfilam em blocos evangélicos durante o carnaval, adotaram o símbolo nacional, o futebol, como forma de conquistar adeptos, e por isso, existem muitos de atletas de cristo, e há a conversão de todo tipo de profissional como: Atletas, modelos, cantores, políticos e outros. Os Neopentecostais também estão na política partidária e suas posturas nesses meios apresentam um corporativismo, conservadorismo, inclinação à direita partidária, clientelismo, fisiologismo e entre os seus principais projetos estão:
Presos ao ideário bíblico patriarcal, ao zelar pela família nuclear e aos valores cristãos tradicionais – centram sua ação política na defesa de projetos contra a legalização do aborto, do jogo e da união civil de homossexuais, na oposição à discriminalização da maconha, no combate ao feminismo, à nudez, à liberdade dos costumes e a pornografia e no apoio à censura dos meios de comunicação. (p.104)
Os seus anseios na participação da vida partidária são para que haja uma espécie de dominação cristã do Estado e da vida privada, e para isso, usam a mídia como seus principais aliados. Mas, para o autor em questão no estado laico isso tudo pode ser em vão, já que, o universo religioso é plural e inviabiliza o monopólio religioso, então, as atividades culturais clonadas dos Neopentecostais não se torna relevante dentro do cenário nacional. E embora tenham aderido às práticas secularizadas, ou seja, flexibilizaram em termos de usos e costumes e crescem em número, pois atendem os desejos das classes pobres e marginalizadas, ainda possuem idéias arcaicas, o que faz os representantes evangélicos esqueçam suas rivalidades religiosas, e se unam em conchavos para formar a bancada evangélica, e Ricardo mariano diz que, o futuro dessa religião será o dá flexibilização, da adaptação e da aculturação, mesmo que de forma parcial.
3 CONCLUSÕES DA RESENHISTA:
Este artigo de Ricardo Mariano é Bem contundente, pois mostra uma relação entre catolicismo, protestantismo, pentecostalismo e neopentecostalismo e os suas principais características. Diante desse estudo se verifica o quanto as escolhas religiosas refletem a realidade social brasileira, pois, de acordo com as estatísticas as denominações cristãs que mais crescem corroboram com a falta de intelectualidade. A mudança no pentecostalismo, ou seja, o avanço do Neopentecostalilsmo mostra também como o povo internalizou a cultura capitalista e mesmo quem está à margem quer adquirir bens e conquistar prestígio social, e Deus proporciona isso, basta ter fé. E não importa as questões teológicas sobre os propósitos Deus pra humanidade, pois Deus não quer que ninguém sofra então isso reflete os anseios de uma sociedade que sofre devido às desigualdades sociais e o pentecostalismo é uma forma de reagir a isso, por isso, que esse grupo cresceu tanto, diferente do protestantismo Histórico que ficou preso a uma teologia conservadora e não conseguiu avançar, pois não oferece nada de novo para resolver os problemas sociais, e com isso, deixou de trazer esperanças imediatas para a sociedade, afastando o povo de dentro dos seus templos.
4 CRÍTICAS DA RESENHISTA:
Na obra de Mariano o futuro não será protestante podemos ter uma visão de como se desenvolvem no território brasileiro as principais correntes do cristianismo, e o que se observa é que, este autor tem razão em suas colocações, mas, quando olhamos o cenário religioso brasileiro e verificamos que ele é plural, e cada vez mais o que cresce não é religião A ou B, pois, o transito religioso, hoje, é muito grande, o que compromete a fidelidade religiosa, ou seja, o mesmo indivíduo que freqüenta uma igreja católica aos domingos pode freqüentar a igreja Universal do Reino de Deus na quinta feira ou nas seções que mais lhe interessa, então, o futuro está relacionado com um processo de fé que vai além de instituições, porque, o processo de secularização proporcionou esse universo plural, e na atualidade fica difícil prevê se o futuro será protestante, pentecostal, neopentecostal, ou sem religião.
Mas, as igrejas protestantes históricas realmente apresentam situações desfavoráveis em seus números de freqüentadores, isso pode estar relacionado como o nível de intelectualidade dessas denominações e também com a burocracia que nelas existem, o que difere das igrejas pentecostais, o processo de ordenação nas protestantes exige anos de estudo, enquanto que na pentecostal, em meses a pessoa já está apta a exercer uma liderança, embora o número de seminários tenha crescido. Mas, os conteúdos estão muito voltados para as confissões específicas de cada caso. No caso da participação na política partidária os protestantes também perdem para os pentecostais, pois este último grupo quer se tornar hegemônico, e segundo Mariano ele pretende retomar a união igreja/estado, diferente dos protestantes que para participarem dos processos democráticos não precisam necessariamente das ações de suas denominações, embora muitas igrejas tenham participações ativas em movimentos sociais.
Mas, a conclusão que se tira é que realmente o futuro não será protestante, mas que o diálogo entre: Religião, cultura, política partidária, dentro de uma sociedade secularizada é muito importante, para que haja o direito a cidadania, e nesse ponto os pentecostais estão anos luz dos protestantes históricos.
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Quero parabenizá-los pela iniciativa e mente de cristo ao inovar acompanhando o tempo(hoje)
Comment by adonias gomes lopes(pr)— setembro 26, 2010 #