Os Bem-aventurados do Reino

julho 6, 2009 às 10:23 pm | Publicado em Thiago Azevedo | 2 Comentários
Tags: , ,

Thiago Azevedo

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.” Mateus 5.11

Quando pensamos em Bem-aventuranças logo pensamos em uma mensagens positivas e que nos remete ao que devemos fazer para sermos melhores cristãos e sermos felizes diantes de Deus. Mas no contexto de Mateus e Lucas, essas Bem-aventuranças tem algo muito maior do conselhos que nos orientam a um caminho rumo a felicidade.

Primeiro devemos observar o contexto social dos judeus no período em que este discurso fora pronunciado. Os Judeus em sua maioria eram de posses muito modestas e entre eles havia um número muito grande de mendigos e desempregados. O mundo judeu havia se modificado largamente em virtude da helenização que aconteceu durante os 400 anos após o período de Malaquias, isso pode ser confirmado na leitura dos livros Deuterocanônico dos Macabeus, onde ali é registrado a formação do movimento farisaico e a resistência contra a helenização judaica. Nesse sentido, o conceito de bem-aventurança grego era baseado justamente nos bens materiais. Entre os judeus também havia uma grande expectativa na libertação tanto política quanto espiritual e eram feitas orações diárias em prol desse objetivo, como se pode ver:

“Toca o trombone para nossa libertação e levanta o pendão para a reunião de nossos exilados… Traze de volta nossos juízes, como anteriormente e nossos conselheiros como no início, sê rei sobre nós, unicamente tu” (Contexto e Ambiente do Novo Testamento – Eduard Lohse, Paulinas)

Vale lembrar que antes do estabelecimento da monarquia em Israel o modo de governo era através do sistema Tribal, que valorizava um processo mais igualitário na divisão de terras e de trabalho e o culto não se centralizava no templo. E quando a monarquia se estabeleceu, tudo se centralizou, do poder ao culto e com isso, o povo se viu oprimido e também o aumento em grande escala das desigualdades sociais que desembocaram no contexto vivido por Jesus.

As bem-aventuranças não eram ensinos novos, mas já se empregavam fórmulas de felicidade no Antigo Testamento falando de piedade, sabedoria e prosperidade:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. – Salmo 1.1, 2;
Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança. – Salmo 33.12;
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta. – Salmo 127.5, 6;
Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos. – Salmo 128.1

E várias dessas bem-aventuranças são compilações de ensinamentos baseados no Antigo Testamento (Sf 2.3; Sl 37.11; Sl 126.5; Is 61.2, 3 e Is 51.1). Isso não faz de Jesus menos original, mas mostra que ele estava plenamente fundamentado e que conhecia plenamente a palavra de Deus, pois vale lembrar que dois grupos que se dedicavam à leitura e a interpretação das escrituras eram os Fariseus e os Saduceus e com isso o povo na sua maioria seguiam as suas orientações, nesse sentido eles punham nos ombros do povo um fardo muito pesado de se carregar.

Fazendo um passeio nos evangelhos de Mateus e Lucas, podemos encontrar ainda outras bem-aventuranças relacionadas a outros temas e em outros contextos (Mt 11.6; Mt 13.16; Mt 16.17; Mt 24.46; Lc 11.27, 28) e nesse sentido as bem-aventuranças contrariam o conceito grego de felicidade que era baseada nos bens materiais. Nessa sociedade vivida por Jesus, os pobres e excluidos viam aqueles mais favorecidos como bem-aventurados de Deus e eles acabavam se vendo como amaldiçoados e esquecidos.

Nesse sentido as Bem-aventuranças de Jesus trazem uma nova proposta que subverte e aproxima Deus daqueles que não se viam abençoados e com isso temos o paralelo com as encontradas em Lucas 6.20-26.

Durante todo o ministério de Jesus se vê muitos momentos onde o mestre prioriza os pobres em detrimento dos ricos, o que se pode ver em vários textos como por exemplo em Lc 14.7-14 e Lc 16.19-31 (outros textos Lc 4.18; Mt 11.5; Lc 14.7-14; Tg 2.5) e que esse reino de Deus veio para aqueles a quem o mundo excluiu. Em contra partida os ais encontrados em Lucas são relacionados com os ais dos profetas com um grande aspecto de justiça e equidade social (Is 5.8, 11, 18, 20, 21, 22; Hc 2.6, 9, 12, 15, 19; Am 5.18).

Jesus queria mostrar que os que são aprovados por Deus são justamente aqueles que são desaprovados pelo mundo, que o sucesso a custo da injustiça e da corrupção. Que aqueles que são aprovados por Deus devem se fazer pobres, ou seja, miseráveis em espírito, mendigos (mesmo termo utilizado em Lc 16.20, 22 e em Mt 5.3). Significando que para se achegar a Deus não devemos agir com presunção, pois conforme Romanos 3 ninguém é apto para o Reino.

As bem-aventuranças são um contraste gritante ao modo de vida social e religioso de sua época, justamente porque fugia da regra da interpretação da lei que eles aplicavam e aproximava Deus de um grupo totalmente desprovido de acolhimento daqueles grupos mais favorecidos.

Se formos separar as características das Bem-aventuranças vamos ver que o bem-aventurado de Deus é justamente Cristo, que se fez mendigo por nós, observe as características: Pobres em Espírito; Mansos; Aflitos; Fome e sede de Justiça; Misericordiosos; Puros de Coração; Perseguidos em nome da Justiça e por causa de Deus (Cristo). Analisando cada característica o único que preenche todos esses requisitos é justamente Ele. E com isso não corresponde ao que alcançamos, mais um ideal para ser almejado por todos, pois junto a essas bem-aventuranças temos em paralelo os frutos do Espírito encontrados em Gl 5.22, 23 que complementam essas características.

As bem-aventuranças representam um modelo de cristão pautado justamente naquilo que há de contrario ao mundo, pois Deus trabalha a partir dessa perspectiva, contrariando a lógica do mundo e Cristo mostra isso em seu ministério através da inversão dos conceitos e vivendo o contraste: Ricos-Pobres/Primeiros-Ultimos/Maior-Menor/Senhor-Servo.

As Bem-aventuranças não são apenas marcas para o cristão, mas um espelho para um ideal a ser alcançado por todos.

Que Deus nos abençoe a procurar vivenciar a cada dia esse ideal.

2 Comentários »

Feed RSS para comentários sobre este post. URI de trackback

  1. Parabéns meu Amigo e Ir. Thiago pela profundidade e clareza do texto.

    Abs.,

    Kleber Rocha

  2. Sentimos muito sua falta em nossos projetos e sonhos para uma igreja melhor.

    Que Deus te abençoe ricamente, junto com sua maravilhosa família0,


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Blog no WordPress.com. | Tema: Pool até Borja Fernandez.
Entradas e comentários feeds.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.